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Parceria de empresas com o poder público fazem Curitiba registrar aumento da presença de pessoas com deficiência no mercado. Reportagem: J. Olímpio, de Curitiba.

O Paraná possui 16% da população com alguma deficiência - 1,5 milhão de pessoas no estado, se atualizado esse percentual do Censo 2000 do IBGE com recente projeção de população feita pelo instituto. Mas não possui estatísticas seguras sobre quantas estão efetivamente inseridas no mercado de trabalho. Apenas em Curitiba, onde em 2006 havia 1.578 profissionais com deficiência com carteira assinada. O que dá pra saber com certeza é quantas deveriam estar empregadas caso num passe de varinha mágica a Lei de Cotas passasse a ser cumprida: 9.227 pessoas, em 855 empresas que possuem acima de 100 empregados e, por isso, estão obrigadas a reservar postos de trabalho para profissionais com deficiência. Um contingente de mão-de-obra capaz de contribuir para o desenvolvimento local.

O conceito de produtividade tem sido repaginado com a ajuda das novas tecnologias aplicadas ao trabalho, abrindo possibilidades e campos de atuação até então inexistentes. Pessoas com limitações físicas, mentais e sensoriais antes compulsoriamente excluídas, hoje assumem postos no competitivo mercado profissional com alto grau de desempenho.

O panorama da empregabilidade das pessoas com deficiência na região metropolitana de Curitiba passa por uma saudável mudança de paradigma, que também atinge as esferas de governo e a iniciativa privada. Deixando de abrir espaços apenas na informalidade, em atividades de subsistência ou tecnicamente desqualificadas, esse novo quadro aponta para o crescimento da inclusão. Baseada em competência.

O Programa de Apoio à Pessoa com Deficiência da Secretaria de Estado do Trabalho, Emprego e Promoção Social do Paraná (SETP), por exemplo, envolve outras secretarias de estado, como a de Justiça, e o Sistema Nacional de Emprego (SINE) numa ação integrada.

O programa, que tem como objetivos principais a inserção das pessoas deficientes no mundo do trabalho, a afirmação de sua competência profissional e a garantia da dignidade ao trabalhador, é coordenado por José Simão Stczaukoski, que é cego: "Uma prova da importância de um programa como o nosso é o envolvimento de instâncias e entidades externas à área governamental. Mais do que uma política de governo, ele passa a ser uma política pública."

O atendimento é feito nos postos e regionais da SETP, usando a mesma estrutura destinada ao encaminhamento de trabalhadores sem deficiência. Muitas vezes, o primeiro contato com o programa acontece através de ONGs e da Pastoral do Deficiente. A busca individual pelo serviço ainda é feita por uma minoria. Um indicador de que boa parte da mão-de-obra disponível ainda representa um potencial não aproveitado.

Em 2006, o preenchimento das vagas geradas pela Lei de Cotas (Nº. 7.853/89) esbarrou em dificuldades conjunturais como falta de capacitação profissional dos candidatos e de transporte adaptado aos locais de trabalho. As empresas ainda estão se organizando para acolher, treinar e admitir deficientes em seus quadros. Além da extinção dos obstáculos arquitetônicos nas empresas, a inserção de funcionários com deficiência implica adotar novos conceitos na gestão de pessoal - o que demanda mudanças importantes e nem sempre imediatas.

A Cidade Industrial de Curitiba (CIC) é um distrito planejado para abrigar grandes empresas de diversas áreas. A Robert Bosch, que possui uma unidade na CIC - possui cerca de 4.600 operários -, é uma delas. A empresa produz componentes para injeção eletrônica de motores automotivos e os exporta para vários países. A partir da trajetória de um funcionário acidentado no trânsito, cuja reabilitação o condicionou ao uso de cadeira de rodas, a Bosch iniciou um esquema permanente para admissão de colaboradores com deficiência. "Em 2003, iniciamos uma parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI-PR) para treinamento e admissão de pessoas com necessidades especiais", conta o gerente de recursos humanos, Rene Lopes. "Começou com um curso de mecânica básica. Com empresas parceiras, criamos o Programa de Ações Inclusivas. Hoje, temos uma estrutura de capacitação e promoção social."

O programa objetiva expandir o acesso dessas pessoas a cursos do SENAI-PR, assegurando condições de permanência e inserção no mercado de trabalho.

O SENAI-PR entra com o espaço físico, com as oficinas e com os instrutores do curso. A Bosch e as empresas copatrocinadoras atuam no suporte aos candidatos, em ações complementares que possibilitam a participação deles. "O curso de mecânica básica exigiu que nos envolvêssemos também com o transporte e a alimentação dos alunos", diz Lopes. "Isso proporcionou mais qualidade à capacitação e melhor aproveitamento para todos." Circulei com minha cadeira de rodas pelos pátios e pavilhões da Bosch e pude comprovar a acessibilidade das instalações. Rampas, portas largas e de fácil abertura, sanitários adaptados e um programa interno de ginástica laboral humanizam o ambiente de trabalho.

Ali mesmo conversei com Dirceu Cielinski, 20 anos, que atua na inspeção de qualidade da linha de montagem de componentes para ignição eletrônica automotiva. Ele está em Curitiba há dois anos. Veio de São Bento do Sul, Santa Catarina, para fazer tratamento de uma infecção na coluna vertebral. Paralelamente a isso, decidiu fazer o curso do SENAI. "Estava mal, não podia nem andar. Fui para a cadeira de rodas. Me tratava no hospital, de manhã. À tarde, fazia o curso de mecânica básica. Quando vi, estava formado e com um emprego aqui. Acabei ficando."

Hoje, Dirceu não precisa mais da cadeira de rodas. Sua limitação física reduziu-se a um encurtamento numa das pernas, o que o faz andar com certa dificuldade. Tecnicamente, tornou-se uma pessoa com deficiência integrada profissional e socialmente à vida da empresa. "Antes do problema na coluna, eu tocava acordeon e competia em concursos de laço (montado a cavalo). Pensei que teria de parar com tudo, mas voltei a montar e sempre sou chamado para tocar sanfona em churrascos na fábrica."

Além de Dirceu, a Bosch conta com outros 133 funcionários com deficiência. A maioria atua na produção. Rene Lopes avalia o resultado do trabalho inclusivo. "Num mercado que exclui pessoas até pela faixa etária, conseguimos trazer para a formalidade gente com potencial produtivo e competência." A Volvo, outra empresa sediada na CIC, foi uma das pioneiras do cinturão industrial curitibano. Instalou uma montadora de caminhões há vinte anos. A política de inclusão profissional é explicada pela responsável da área de Recursos Humanos, Sônia Gurgel." Nossa prioridade é o estrito cumprimento da lei. Isso em relação a todos os grupos minoritários, tanto raciais quanto de gênero e de diversidade. Ainda estamos aquém dessas metas, mas esta é uma dinâmica que não tem volta e deve ser cumprida."

Sobre as condições de acessibilidade da planta, Sônia comentou: "Estamos fazendo o possível para receber bem nossos funcionários com deficiência (são 61), adaptando instalações e deixando a fábrica mais acessível." Certas adaptações arquitetônicas ainda estão por fazer, principalmente nas áreas compartilhadas pelos trabalhadores com e sem deficiência. É o caso dos vestiários e sanitários, bem como dos acessos externos das linhas de montagem. Já no chamado chão de fábrica, rotas de piso tátil facilitam o deslocamento dos dois cegos responsáveis pelo controle de qualidade da montagem de cabinas, cuja rebitagem é feita por robôs.

Valdevir Dambrosini, o Farofa, e José Carlos Melo, o Caramelo, estão há seis na função. Eles falam do trabalho com entusiasmo. "Soube das vagas através da Associação dos Deficientes Visuais do Paraná (ADEVIPAR )", conta Valdevir. "Fiz o treinamento e estou muito feliz com o meu emprego." Caramelo completa. "Me dei bem com o trabalho. Gosto muito do ambiente da fábrica e estou ficando famoso até fora dela, por conta da repercussão de nossa presença aqui."

Praticantes de futebol adaptado, os dois especialistas em controle de qualidade tornaram-se uma espécie de divulgadores da política inclusiva da Volvo, graças à visibilidade que suas trajetórias vêm obtendo na TV e jornais. Luanne Gastaldi, supervisora da linha de montagem onde eles trabalham, acrescenta. "Os dois são muito competentes. Já nos proporcionaram melhorias nos equipamentos com sugestões aos engenheiros. Viraram consultores de eficiência."

Programa de Apoio à Pessoa com Deficiência - Secretaria de Estado do Trabalho, Emprego e Promoção Social do Paraná (SETP)
Rua José Loureiro, 750, 4o andar
Curitiba (PR)
Tel. (41) 3883-2601

Fonte: Sentidos

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